Uma Fruta Atrás da Outra

Luciana Ribeiro da Silva - India


May 23, 2019

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Escrito no dia 19 de março de 2019, em Hyderabad, India.


Chegamos na Índia quando a época do romã tinha acabado de começar. Fortes tons de rosa e vermelho tinham dominado cafés da manhã e vasilhas de iogurte. E mesmo que as sementes da fruta fossem saudáveis e brilhantes, eu carregava em mim o peso de querer estar em outro lugar o tempo todo. Nada era suficiente, especialmente eu mesma.

Os ventos melhoraram quando chegou a época da pinha, fazendo uma bagunça doce dentro da minha bolsa quando era esmagada pelos meus livros. Até lá, eu já tinha aprendido a barganhar autos, comer com as mãos e fazer minha turma prestar atenção na aula. Eu também já tinha aprendido que eu teria que deixar algumas coisas seguirem seu caminho sem mim se eu quisesse ver a beleza que estava no meu.

E essa beleza só apareceu completamente quando a época da goiaba chegou. Eu via beleza nas cores nas ruas e no vento à noite. Beleza nos olhos das minhãs irmãs e na risada dos meus alunos. Na comida, nos meus amigos, no silêncio do meu quarto à noite. Eu finalmente conseguia ver beleza no espelho quando vestia uma kurta.

As uvas chegaram com o Natal e noites mais frias e amigos vindo pra Índia pra ver como eu estava. Eu comi uvas no Ano Novo na praia em Pondicherry e pro lanche num dia de trabalho.

E finalmente, a melancia chegou assim que o calor começou a apertar – 20 rúpias, com sal, logo antes de entrar em sala. Uma das minhas irmãs tinha acabado de fazer quatro anos e a outra já arriscava os primeiros passos. Alunos estudando para as provas de fim de ano e meus amigos imersos nos próprios projetos.

Sabores e texturas de todos os tipos pro café da manhã, uma época atrás da outra. Mas a animação parecia estar em outro lugar:

“Quando chega a época da manga?”

“Ah não! Vocês já vão estar quase indo embora quando começar – bem no começo de abril.”

A estação da manga é nossa última estação – eu entendi.

O tempo passou e eu esqueci das frutas e suas épocas, quando hoje de manhã meu avô me ofereceu uma manga pra comer no caminho. O sorriso foi doce como o de qualquer outra manhã, mas a ausência da laranja ou da banana de sempre me fez congelar por um instante.

No caminho pra casa hoje, eu pude sentir o cheiro nas barracas de fruta pela rua, mesmo de longe. O verde e amarelo da fruta que eu conheço do lugar de onde eu venho fez eu me sentir quase indevida ali.

A estação da manga é nossa última estação – eu me lembrei. Chegou a hora de ir pra casa.


Luciana Ribeiro da Silva