Vida inteira numa terça-feira

Luciana Ribeiro da Silva - India


February 12, 2019

Me lembro bem de ouvir alguém dizer que pra sobreviver a um ano sabático eu
tinha que me acostumar a não fazer muita coisa. Abraçar o vazio das muitas
horam que habitam numa terça-feira à tarde.

Bem, antes que eu pudesse aprender a administrar a monotonia de não ter o
que fazer, as mil e uma coisas acontecendo em Hyderabad me acharam no meio
do caminho. Como nunca fui muito fã de intervalos, decidi viver todas as
que eu podia de uma vez só.

Então, aí vai um resumo das minhas terças-feiras:

*7:45*
Acordo e pratico um pouquinho de yoga, logo que levanto. Achei uma
terapista de yoga (de graça!!!) que cria uma rotina baseada nas suas
necessidades individuais – a minha é focada no meu sono, ciclo menstrual e
meu tornozelo estragado.

Nada como começar um dia com um pouquinho da “Índia espiritual”!!!

*8:30*
Depois de colocar minha kurta rosa preferida com um lenço rosa pra
combinar, saio de casa correndo, claro. Por causa da minha falta de
pontualidade, nunca tenho tempo de tomar café da manhã em casa, então meu
“avô” sempre me dá uma laranja e uma banana pra comer no caminho.

Começo minha jornada pra escola andando uns quinze minutinhos até a avenida
principal. Mesmo que não consiga falar Telugu, ainda consigo acenar pra
algumas carinhas conhecidas que estão indo pro trabalho, assim como eu.

Esse é o primeiro auto rickshaw (o famoso tuktuk que funciona como
condução) que eu pego pra chegar na minha escola.
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*09:45*
Depois de andar por quinze minutos, pegar um tuktuk, andar mais dez
minutos, pegar outro tuktuk, mais um tuktuk e mais 5 minutinhos, chego em
Nachiketa Tapovan.

De segunda a quinta, eu trabalho como assistente de professora em Nachiketa
Tapovan com 50 alunos da terceira e quarta série, uma escola particular
gratuita que funciona por doações. Tenho duas mentoras maravilhosas da
organização Teach for India, Aishani e Sandya. Teach for India é uma
organização que tem como objetivo acabar com a desigualdade do direito à
educação, criando um movimento de líderes que trabalham em escolas de baixa
renda ao redor da Índia.

Assim que eu chego na escola, meus alunos ainda estão tendo aula de hindi,
então eu uso esse tempinho pra corrigir uns cadernos, planejar minhas aulas
ou terminar algum tipo de papelada que ninguém gosta de resolver.
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*10:30*
Durante o recreio, a gente toma café da manhã e divide o que tiver trazido
de casa, enquanto eu me atualizo com a fofoca das minhas crianças. No
começo, confesso que tinha um pouco de medo de aceitar comida dos meus
alunos: “e se tiver sido preparado em água que não é filtrada?”

Hoje em dia, se eles não me oferecem, eu mesmo acabo pedindo: “Anjumma, eu
te dou cinco uvas se você me der um idli (bolinho de arroz)!!” ou “Abdul,
você pode comer o resto do meu chutney se trouxer um copo de chai pra
mim!!” Melhores amigos, claro.

*11:00*
Eu fico de olho na terceira série enquanto eles fazem o dever de matemática
por um tempinho. Olha que gracinha!!
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Depois disso, eu vou pra sala da quarta série pra dar uma aula sobre
inteligência emocional (já explico mais!). Antes de começar, sempre jogamos
um joguinho pra colocar as boas energias pra rolar – aqui, as crianças
estão brincando de “Dicionário”: eu escrevo uma palavra grande e complicada
no quadro e eles tem que formar outras palavras usando as mesmas letras!
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*12:00*
Uma vez por semana, a terceira série participa de um projeto de leitura
numa escola pertinho. Lá eles leem juntos e conversam sobre os livros.
Tanta coisa acontecendo nessa foto que realmente mostra como a gente
funciona em equipe.
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*13:00*
Quando voltamos pra escola, já é hora do almoço. Na maior parte da semana,
a escola oferece comida pros alunos e professores. Geralmente, é um curry
de legumes, arroz e iogurte. Bem gostoso, na verdade, sou mó fã!

Depois disso, eu volto pra sala de aula e brinco com as crianças até o fim
do intervalo.

Aqui, a gente tá brincando de “carrom board”, um jogo indiano que você tem
que colocar as fichinhas nos buracos. Parece simples, mas eles acham um
jeito de deixar mais complicado, acredita em mim.

*14:00*
Antes de eu ter começado a trabalhar em Nachiketa, minhas mentores já
tinham uma parceira com a “Learning Curve Foundation”, uma organização que
tem como objetivo “possibilitar o desenvolviment emocional e social para
crianças em comunidades com poucos recursos.” Em sessões de 45 minutos, os
professores mediam o aprendizado de “conhecimento para a vida”, por
exemplo, como perdoar, como ser um bom ouvinte, autoestima e identidade por
meio de histórias e dinâmicas. Eles amam! E eu também.

Desde setembro, eu facilito essas sessões na quarta e quinta série e as
discussões são sempre de tirar o fôlego. As crianças são muito maduras
emocionalmente e demonstram um nível de compreensão que a
Luciana-de-nove-anos nem sonhava em ter.

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Nessa sessão, a gente estava conversando sobre trabalho em grupo! “É muito
mis fácil de manter o balçao no ar se a gente der chance pros nossos amigos
baterem também, didi.” Didi significa irmã mais velha em hindi. Tem algum
jeito deles serem mais bonitinhos??? Vivo de queixo caído.

*15:00*
Meu turno na escola acaba e eu começo minha jornada pro segundo estágio.
Depois de um busão e vinte minutos a pé……..

*16:00*
Eu chego em um dos mais coloridos, caóticos, cheios de energia, funcionais
e inspiradores lugares eu já frequentei: Rubaroo!!!!!!! Rubaroo é uma
organização onde “jovens são empoderados a entender suas identidades e
sociedades para então engajar em mudanças sociais.” Literalmente, significa
“cara-a-cara” em hindi. Rubaroo proporciona oficinas e programas para a
juventude sobre gênero, religião e desenvolvimento juvenil.

O que começou como um estágio de “duas horas por dia, duas vezes por
semana” se tornou grande parte da minha experiência em Hyderabad. No
momento, eu estou envolvida com o uma iniciativa que tem como intuito
combater o Casamento Infantil e Precoce por meio da conscientização de
joves sobre a puberdade. Eu sou responsável pelo estudo de impacto do
programa, entrevistando jovens, escrevendo perfis, observo sessões e ajudo
a organizar o evento de encerramento do programa. Por meio do Rubaroo, eu
já conheci tantos jovens incríveis e mulheres maravilhosas. Sempre
aprendendo.

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*18:00*
Antes de ir pra casa, sempre que tenho companhia, eu como um lanchinho com
alguém do trabalho. Comida indiana de rua é sempre a melhor opção, se você
tiver um estômago forte!

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Esse é o Amar comendo punugulu (tipo um bolinho de chuva salgado). Amar é
um dos meus melhores amigos em Hyderabad!

*19:30*
Eu chego em casa e vou me “refrescar”, o que significa lavar as mãos, os
pés e o rosto, antes de interagir com a minha família. Antes do jantar, eu
fofoco um pouco com a minha host mom, Kavya, e brinco com as minhas irmãs,
Sahasra e Sahania. Meus raios de sol!

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*21:30*
Depois do jantar, eu vou pro meu quarto e resolvo algumas coisas pro
trabalho, faço uns testes do buzzfeed, um pilateszinho, um netflix, faço
alguns nadinhas ou aproveito pra ligar pra minha mãe e meus amigos. Ou, ao
invés disso, eu paro de fazer tudo isso porque a Sassy, minha irmãzinha,
vem correndo pro meu quarto e não sai daqui até a gente assistir um
filminho juntas. Sempre bom terminar o dia desse jeito.

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Esse é um pedacinho do meu cotidiano! Muitos pontos de exclamação foram
usados só pra mostrar meu entusiasmo.

Nem todos os meus dias são assim tão bons, eu admito. Assim como em
qualquer outro lugar, alguns dias includem celulares perdidos, óculos
quebrados, dores de cabeça, comida estragada, aulas frustrantes, choques de
cultura, mal entendidos e saudades de casa.

Na verdade, de vez em quando eu esqueço que tô na Índia. A exótica,
magnífica, espiritual, famosa, misteriosa, mística, estereotipada Índia. De
vez em quando eu sinto que poderia estar em São Paulo ou outra grande
cidade qualquer no Brasil. De vez em quando eu acho que poderia estar em
casa. Talvez eu esteja em casa.

(!!!!!!IMPORTANTE!!!!!!! Essa é a minha narrativa. O jeito que eu vejo a
Índia em um momento específico depois de um dia bom. A experiência que meus
alunos tem não representa a experiência da maioria dos alunos na Índia.
Hyderabad não representa a grandiosidade dos 29 estados, 7 territórios e 22
línguas oficiais na Índia. As pessoas que eu interajo diariamente não
representam todas as 1,3 bilhões de pessoas nessa terra.
Eu sou só uma borboletinha brasileira voando e aprendendo nesse lugar.
Minha experiência não pode ser a única narrativa que você já ouviu sobre
esse país tão imenso. Existe muito muito muito mais.)





Luciana Ribeiro da Silva